Reportagem e texto: Nilva Bianco
Fotos: Marcello Vitorino/Fullpress
É meio-dia de um sábado azul em Olímpia quando o grupo numeroso de homens e mulheres quebra a quietude calorenta do cemitério. As roupas enfeitadas, as fitas coloridas nos chapéus contrastam com a sobriedade dos túmulos de mármore e granito, mas o tom é grave. Vestido de branco dos pés à cabeça, Alessandro Silva Santos leva nas mãos um vaso com flores amarelas que, ao final da procissão até uma das aléias laterais do cemitério, serão depositadas no túmulo do professor José Sant’anna. Amarelo era a cor preferida do maior folclorista da região, morto em 1999. Santana, como era chamado, também teria apreciado a seqüência da homenagem: viola e cantoria pungente ao pé do seu túmulo.
Desde a morte de Sant’anna, em 1999, os grupos folclóricos que se apresentam no Festival vão ao seu túmulo prestar homenagens
Os responsáveis pela homenagem não são moradores da cidade. Eles, que se dizem ‘filhos’ de José Sant’anna, vieram de longe, do Sergipe, do Pará, do Pantanal, para participar do Festival Nacional do Folclore (Fefol), criado há 40 anos pelo professor. São aposentados, lavradores, estudantes, donas de casa que têm nas manifestações de canto, dança e artesanato uma maneira de expressar seus valores, de viver.
Alessandro, que emocionou-se e chorou ao levar as flores até o túmulo de Sant’anna, veio da cidade de Lagarto, no Sergipe. Ele é um ‘parafuso’, nome da dança cujos integrantes, vestidos com roupas brancas, rodopiam ao som de tambores relembrando as fugas dos antepassados escravos. O rapaz de 18 anos, que é lavrador e cursa o 2º ano do Ensino Médio, diz que está feliz por poder viajar mais uma vez a Olímpia.
A dona de casa e lavadeira aposentada Maria Helena dos Santos, 65, outra moradora de Lagarto, parece tão moça quanto Alessandro ao falar da sua dança, o Samba de Roda Peneirou-o-Xerém, que remete à antiga lida de ralar e peneirar o milho: “dançar é viver”, define Dona Maria Helena, que há oito anos faz a viagem de ônibus entre Lagarto e Olímpia para apresentar-se no Festival. Já Ane Deyse, 20, dançarina da Cia. De Dança Afro Baraka, de Macapá, enfrentou três dias na estrada para chegar a São Paulo e participar do Festival do Folclore. “Vale a pena, é tudo muito bonito. Nos sentimos honrados por terem nos convidado”.
Todos os anos, durante uma semana em agosto, gente como Alessandro, Maria Helena e Ane mudam a cara de Olímpia. Este ano, o Festival do Folclore, o maior do gênero no País, recebeu mais de 60 grupos folclóricos e parafolclóricos de todas as regiões. Entre os dias 8 e 15, eles apresentaram-se para milhares de pessoas na Praça de Atividades Folclóricas Prof. José Sant’anna, chamada pelo moradores de ‘recinto’, e também nas praças, escolas e cidades vizinhas. Aliás, foi numa escola estadual de Olímpia que essa história começou.





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